12 de Dezembro de 2018

Fotógrafa cria oficina de autorretrato para pessoas com deficiência visual

"Quem disse que cego não se interessa por fotografia?". O questionamento é do consultor em audiodescrição Felipe Monteiro, que perdeu 90% da visão após ter uma meningite, em 2013. Ter baixa visão ou deficiência visual, explica ele, não impossibilita alguém de gostar e entender de fotografia. Sua amiga, a fotógrafa Patricia Moreno, concorda: ela dá oficinas de autorretrato tátil voltadas para esse público há três anos — e já teve Felipe como aluno. A próxima aula acontecerá no dia 25 deste mês, em Niterói (veja mais no quadro ao lado).

 

Patrícia mostra nas oficinas uma forma de fazer a leitura da fotografia a partir do do tato. A presença de uma audiodescritora — profissional que narra à pessoa com deficiência visual o que acontece ao seu redor — completa a experiência. E a ideia de que “cego não se interessa por fotografia” cai por terra.

 

— É preciso desconstruir essa ideia de que quem não enxerga não se interessa pela parte visual, por cor, imagem... Essa é a primeira barreira que se derruba em um curso assim. Na oficina, a gente se dá conta de que, com as ferramentas e direcionamento corretos, podemos fazer uma fotografia — diz Felipe, chamando atenção para a função social da aula. — A sociedade nos diz que não somos capazes. Por isso, perceber o contrário é muito importante.

 

Para falar sobre fotografia, Patricia, que é também voluntária do Instituto Benjamin Constant, desenvolveu recursos táteis para que os participantes compreendam questões como planos, foco e enquadramento. Ela imprimiu, por exemplo, imagens e nelas incluiu algum tipo de textura, como papel celofane, para representar o mar de um retrato. Um adesivo áspero, por exemplo, indica o asfalto de uma ciclovia.

 

Ao tocar nas imagens com estes recursos, a percepção da figura original é sentida automaticamente pelo aluno com deficiência visual.

 

— Isso proporciona a fruição com a fotografia, faz com que o aluno se posicione no tempo e no espaço daquele retrato — conta Patricia, que se emociona ao falar sobre a função de suas oficinas. — O objetivo é levar a comunicação visual para pessoas que “comem só uma fatia do bolo” por não enxergarem. A intenção é entregar-lhes o bolo inteiro.

 

A hora da ‘selfie’

 

Para mostrar que as pessoas com deficiência visual têm, sim, a capacidade de fotografar, a última etapa da aula é o autorretrato com o uso do celular, tendo como apoio as instruções recebidas na oficina. Com seus smartphones, os alunos se posicionam à frente de um painel tátil com uma foto do Morro da Urca. Lembram-se das orientações da oficina e fazem o registro.

 

— Eles mesmos se fotografam depois dessa aula, em que entendem pontos focais, primeiro, segundo e terceiro planos... Saem aptos a se fotografar com sua câmera de celular e com o controle absoluto dessa ferramenta — afirma a professora.

 

A parte prática da aula vai muito além de uma possível motivação profissional para aqueles que participam. É um aprendizado para o dia a dia, ressalta Felipe.

 

— É aquela coisa: quem quer tirar uma foto nunca pede para o cego fazer isso — ironiza Felipe. — Então, é bom também para desconstruir esse tabu.

 

A oficina transmite ainda conhecimentos históricos e sociais da imagem e da fotografia ao longo dos anos, a partir de exemplos táteis.

 

Para entender as limitações físicas dos colegas, pessoas sem deficiência visual que participam da oficina recebem uma faixa que deve ser colocada sobre os olhos e só é retirada quase no fim do curso.

 

— É uma forma de trazer a comunidade para esse mundo da fotografia tátil. Estimular a conscientização — define Patricia, que espera levar para todo o Brasil a iniciativa dos encontros, atingindo um número cada vez maior de pessoas.

 

A iniciativa faz parte do programa Ponto de Cultura Memória e Fotografia Pública, da qual a Sociedade Fluminense de Fotografia, onde acontecerá a oficina, faz parte.

 

Oficina de Autorretrato

 

Informações: Tel (21) 2620- 1848.

 

Inscrições: Exclusivamente pelo email acervo.sff@gmail.com. Grátis.

Fonte: O GLOBO